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Santa Catarina,12/09/2026

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Acessibilidade para pessoas autistas ainda é desafio em serviços cotidianos de cuidado pessoal

Ruído, toque, espera e ambientes desconhecidos podem transformar procedimentos simples em experiências difíceis e aumentam a necessidade de atendimento adaptado

Rede Alcateia
Acessibilidade para pessoas autistas ainda é desafio em serviços cotidianos de cuidado pessoal Reprodução

A discussão sobre qualidade de vida para pessoas autistas voltou ao centro da agenda internacional nas últimas semanas. No fim de agosto, o Interagency Autism Coordinating Committee, comitê consultivo dos Estados Unidos para políticas relacionadas ao autismo, aprovou um novo plano estratégico recomendando que o investimento federal em pesquisas e iniciativas de apoio passe de cerca de US$ 390 milhões para aproximadamente US$ 760 milhões por ano. A proposta, que não tem caráter vinculante, amplia o foco para assistência médica, moradia, envelhecimento e suporte às pessoas autistas e suas famílias ao longo da vida. 

A expansão das políticas de inclusão, porém, traz outra questão para o cotidiano: acessibilidade não termina em escolas, hospitais ou espaços públicos. Atividades aparentemente simples, como escovar os dentes, lavar ou cortar o cabelo, aparar as unhas e permanecer por determinado período em um ambiente desconhecido, também podem representar barreiras importantes.

Um estudo publicado em março de 2026 na revista Occupational Therapy International, conduzido por pesquisadoras brasileiras, analisou a percepção de cuidadores de crianças autistas com dificuldades de processamento sensorial. Os relatos apontaram impactos em atividades como alimentação, banho, vestuário, higiene pessoal e uso do banheiro. No caso específico da higiene, resistência ao corte de cabelos e unhas apareceu associada principalmente à hipersensibilidade tátil. 

No Brasil, o tema da acessibilidade sensorial também avançou para outros espaços ao longo de 2026. Em abril, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que 23 aeroportos brasileiros já dispunham de espaços sensoriais ou áreas adaptadas para pessoas autistas e outros passageiros com necessidades relacionadas ao processamento sensorial. A iniciativa demonstra como fatores como intensidade de estímulos, ruídos e necessidade de ambientes de regulação começam a entrar na discussão sobre acessibilidade. 

Para Micael Luja Severo Vargas, barbeiro profissional e desenvolvedor de uma metodologia prática de atendimento adaptado em barbearia, essa mesma lógica precisa chegar aos serviços de cuidado pessoal.

Sua experiência começou no Brasil a partir de uma circunstância familiar. Após o diagnóstico de autismo de um de seus filhos, Micael acompanhou durante aproximadamente dois anos o processo terapêutico da criança e passou a observar como previsibilidade, respeito ao ritmo individual e identificação dos sinais de sobrecarga poderiam modificar a experiência em situações difíceis. O próprio corte de cabelo do filho era uma delas. 

Uma máquina de corte próxima à cabeça produz ruído e vibração. A capa toca o pescoço e o corpo. Cabelos cortados podem entrar em contato com a pele. Há iluminação, conversas, movimentação de outras pessoas e a necessidade de permanecer sentado. Quando todos esses estímulos são considerados simultaneamente, um procedimento rotineiro para parte da população pode assumir outra dimensão para uma pessoa com sensibilidade sensorial.

Por isso, a metodologia desenvolvida por Micael parte do princípio de que o procedimento deve se ajustar ao cliente, e não o cliente ao procedimento. Antes de iniciar o corte, o profissional procura estabelecer vínculo e alinhar expectativas com os responsáveis. Durante a execução, observa o estado da pessoa atendida, reduz o tempo de cadeira quando necessário e interrompe o procedimento diante de sinais de sobrecarga. Se não houver condições para continuar, o atendimento é retomado posteriormente ou remarcado. A contenção física não integra o protocolo. 

Na lógica convencional de uma barbearia, acabamento e precisão estética tendem a ocupar o primeiro lugar. Em um atendimento sensorialmente complexo, Micael considera que conforto, segurança e preservação da confiança também precisam integrar o conceito de qualidade. Insistir em alguns minutos adicionais apenas para alcançar um acabamento ideal pode comprometer a possibilidade de a pessoa retornar ao estabelecimento no futuro.

Durante o período em que esteve à frente da Barbearia do Gaúcho, até o final de 2023, Micael também ensinou a abordagem aos barbeiros da própria equipe, que passaram a atender esse público. O estabelecimento manteve ainda uma política de gratuidade para crianças autistas, com preservação da remuneração dos profissionais envolvidos. Em 2023, a barbearia recebeu uma Moção de Aplausos da Câmara Municipal de Quatro Barras pelo apoio ao evento “Vamos Falar sobre Autismo 2023”, iniciativa voltada à conscientização sobre o tema. 

A discussão que ganha espaço em políticas públicas, pesquisas e ambientes adaptados em 2026 aponta justamente nessa direção. Acessibilidade sensorial não se limita ao direito de entrar em determinado espaço. Para milhões de famílias, ela também passa pela possibilidade de realizar atividades rotineiras de higiene, aparência e autocuidado com dignidade, previsibilidade e respeito.





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