Empresas brasileiras pagam por nuvem que não usam: o que o FinOps revela sobre o desperdício invisível na TI corporativa
Pesquisa com mais de 130 companhias aponta baixa visibilidade sobre a fatura de cloud; Paulo Renan, que conduziu projeto multicloud com economia anual superior a R$ 215 mil, explica por que a solução depende da integração entre engenharia, finanças e negó
Reprodução A computação em nuvem prometeu às empresas uma mudança importante na forma de contratar tecnologia: em vez de comprar servidores antecipadamente e mantê-los por anos, seria possível utilizar infraestrutura sob demanda e pagar apenas pelo consumo. Na prática, porém, a flexibilidade que tornou a nuvem atraente também abriu espaço para uma despesa difícil de enxergar e ainda mais difícil de controlar.
O Radar da Nuvem 2025, divulgado em abril de 2026, reuniu mais de 3 mil pontos de dados de mais de 130 empresas brasileiras. O levantamento mostrou que 65% das organizações pesquisadas não sabem exatamente onde estão gastando com serviços de nuvem, enquanto 57% não conseguem prever o valor da fatura do mês seguinte. Em outro recorte da pesquisa, 78% dos participantes disseram que seus custos estavam acima ou muito acima do esperado. Apenas 19,5% afirmaram adotar práticas estruturadas de FinOps.
O problema não é exclusivamente brasileiro. O relatório global State of the Cloud 2026, elaborado pela Flexera com 753 tomadores de decisão e usuários de nuvem, estimou que 29% dos gastos com infraestrutura e plataformas em cloud são desperdiçados. Foi a primeira alta do indicador depois de cinco anos de queda. Ao mesmo tempo, o percentual de organizações com equipes dedicadas a FinOps subiu de 51% em 2024 para 63% em 2026, sinal de que a gestão financeira da tecnologia deixou de ser uma preocupação restrita à área de compras.
Uma conta formada por milhares de pequenas decisões
O desperdício raramente aparece na fatura com uma identificação clara. Ele está distribuído entre máquinas virtuais superdimensionadas, bancos de dados maiores do que o necessário, discos que permaneceram ativos depois da exclusão de servidores, cópias de segurança mantidas além do prazo, ambientes de desenvolvimento funcionando durante noites e fins de semana e recursos criados para testes que nunca foram desativados.
Em uma empresa de grande porte, esses gastos podem estar espalhados por centenas de contas, assinaturas, departamentos e projetos. Cada item, isoladamente, pode parecer pouco relevante. Somados durante vários meses, porém, eles se transformam em uma parcela expressiva do orçamento de tecnologia.
Para o arquiteto de sistemas Paulo Renan dos Santos Ferrari Bessa, o erro começa quando a organização trata a fatura de cloud como uma conta fixa, semelhante à energia elétrica ou à telefonia, e não como o resultado de decisões técnicas tomadas continuamente.
“Na nuvem, a empresa passa a tomar pequenas decisões de consumo o tempo todo. Um desenvolvedor cria um ambiente, uma área pede mais capacidade e um projeto mantém recursos disponíveis por segurança. Quando essas decisões não têm responsável, prazo de validade e medição, a conta cresce sem que exista um único culpado visível”, explica.
Paulo conhece esse cenário pela experiência prática. Em um projeto de FinOps realizado em ambiente multicloud, com serviços da Amazon Web Services — AWS — e da Microsoft Azure, ele conduziu ações que resultaram em economia anual superior a R$ 215 mil nos custos de infraestrutura da Distribuidora de Medicamentos Santa Cruz. O resultado foi auditado e o trabalho recebeu menção honrosa durante uma apresentação trimestral de resultados da companhia. Antes disso, ele também havia atuado com FinOps na Vitta Corretora de Seguros, empresa do grupo Stone Co.
FinOps não é apenas cortar custos
O nome FinOps vem da aproximação entre finanças e operações de tecnologia. Embora frequentemente associado à redução de despesas, seu objetivo é mais amplo: criar responsabilidade financeira compartilhada e permitir que equipes técnicas, financeiras e de negócio decidam juntas onde o investimento em tecnologia realmente produz valor.
A FinOps Foundation define a prática como um modelo operacional e cultural voltado à maximização do valor da tecnologia, com decisões orientadas por dados e colaboração entre engenharia, finanças e áreas de negócio. A instituição também ressalta que FinOps não deve ser executado por uma pessoa isolada, mas incorporado à rotina das diferentes equipes que utilizam e financiam os recursos tecnológicos.
Isso significa que a empresa não deve simplesmente desligar tudo o que parece caro. Uma máquina com baixa utilização, por exemplo, pode ser necessária para garantir disponibilidade em momentos de pico. Um ambiente duplicado pode fazer parte de uma estratégia de recuperação de desastre. Um banco de dados aparentemente superdimensionado pode sustentar uma operação que não admite indisponibilidade.
“O custo precisa ser analisado junto com o risco, a disponibilidade e o resultado esperado pelo negócio”, afirma Paulo.
“FinOps não deve premiar o menor gasto. Deve buscar o melhor valor entregue por recurso consumido. Reduzir uma infraestrutura crítica sem avaliar o impacto pode gerar uma economia pequena e, ao mesmo tempo, criar um risco operacional muito maior.”
Essa distinção é importante porque uma infraestrutura otimizada não é necessariamente a infraestrutura mais barata. A própria documentação de arquitetura da Microsoft recomenda que decisões de custo considerem os efeitos sobre segurança, escalabilidade, confiabilidade e capacidade de operação. A otimização sustentável depende de estratégia, monitoramento contínuo e processos que possam ser repetidos, não apenas de cortes emergenciais.
O desafio mais difícil é cultural
A etapa técnica costuma produzir os primeiros resultados rapidamente. Máquinas ociosas podem ser desligadas, discos sem vínculo podem ser removidos e ambientes de teste podem receber horários de funcionamento. A dificuldade aparece depois, quando a empresa precisa impedir que os mesmos problemas retornem.
“Desligar uma máquina é a parte fácil. O difícil é mudar a regra que permitiu que ela fosse criada sem proprietário, sem prazo de validade e sem vínculo claro com um produto ou serviço”, observa Paulo Renan.
Para que a economia permaneça, a gestão de custos precisa entrar no processo de provisionamento. Novos recursos devem nascer com identificação, área responsável, orçamento e critérios de revisão. Alertas precisam ser configurados para detectar aumentos inesperados, e as equipes devem acompanhar indicadores de consumo com frequência suficiente para agir antes do fechamento da fatura.
A FinOps Foundation organiza esse trabalho como um ciclo contínuo de três fases: informar, otimizar e operar. Primeiro, a organização torna seus custos visíveis. Depois, identifica oportunidades de melhoria. Por fim, incorpora as decisões e os controles à operação. O ciclo é repetido porque aplicações, preços, demanda e serviços de nuvem mudam constantemente.
Visibilidade passa a ser uma vantagem competitiva
A expansão da inteligência artificial, das plataformas de dados e dos serviços gerenciados tende a tornar as faturas ainda mais complexas. No levantamento da Flexera, o avanço das cargas de inteligência artificial foi apontado como um dos fatores que contribuíram para a alta do desperdício global em 2026. A pesquisa também mostrou que 81% dos participantes já utilizavam inteligência artificial generativa, ante 47% em 2024.
Para empresas brasileiras, o risco é ampliar rapidamente o consumo sem construir, na mesma velocidade, mecanismos de atribuição e controle. A consequência pode ser uma infraestrutura que cresce mais rápido do que a capacidade de prever seu custo.
Paulo defende que a pergunta central deixe de ser apenas “quanto gastamos com nuvem?” e passe a incluir “qual produto, cliente, transação ou resultado é sustentado por esse gasto?”. Essa mudança permite diferenciar desperdício de investimento e evita que cortes lineares prejudiquem iniciativas importantes.
Além da experiência em projetos de FinOps, o especialista possui as certificações AWS Certified Cloud Practitioner, Microsoft Azure Fundamentals, AZ-900 e Microsoft Azure Data Fundamentals, DP-900, relacionadas aos ambientes de nuvem e dados utilizados em sua atuação profissional.
“A nuvem não deixou de ser uma ferramenta de eficiência. O que ficou claro é que flexibilidade sem governança não produz economia automaticamente. Quando cada equipe entende o custo das próprias decisões, a empresa consegue reduzir desperdícios sem bloquear inovação”, conclui Paulo.




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