Infraestrutura tecnológica se torna fator decisivo para sobrevivência empresarial em cenários de crise
Especialistas apontam que empresas que investem em arquitetura de sistemas e governança digital reduzem riscos e aumentam resiliência operacional
Reprodução A discussão sobre sobrevivência empresarial deixou de girar apenas em torno de vendas, corte de custos e reposicionamento comercial. O tema da vez passou a ser outro: a capacidade de uma empresa continuar operando quando a tecnologia falha, quando há incidentes cibernéticos ou quando fornecedores críticos se tornam pontos de fragilidade. Ao longo de 2025, relatórios internacionais e movimentos regulatórios reforçaram esse alerta. O Fórum Econômico Mundial destacou o aumento da complexidade cibernética e o impacto da dependência de poucos provedores tecnológicos, lembrando inclusive que a grande interrupção global de TI de 2024 expôs vulnerabilidades com efeitos bilionários. Já no segundo semestre de 2025, autoridades e agentes de mercado passaram a ampliar a pressão por estruturas digitais mais resilientes, com novas exigências e supervisão sobre provedores considerados críticos.
Esse movimento não surgiu por acaso. Em 2025, o ambiente corporativo foi marcado por uma percepção cada vez mais clara de que tecnologia não é mais suporte de bastidor, mas parte central da continuidade operacional. O próprio conceito de resiliência digital ganhou força porque empresas de diferentes portes perceberam que não basta apenas “ter sistema”; é preciso ter arquitetura, governança, contingência, segurança e capacidade de resposta. O World Economic Forum apontou que 72% dos respondentes relataram aumento dos riscos cibernéticos, enquanto 71% dos chief risk officers consultados projetavam disrupções organizacionais severas relacionadas a riscos cibernéticos e atividade criminosa.
Para Dener Lameiras Vieira, essa mudança de mentalidade era previsível. Com uma trajetória construída em ambientes de alta criticidade operacional, ele afirma que muitas empresas ainda tratam sua infraestrutura como um custo técnico, quando na prática ela determina a capacidade real de reação diante de crises.
“Durante muito tempo, a infraestrutura foi vista como uma camada invisível, algo que só precisava funcionar. Hoje isso acabou. Quando a arquitetura de sistemas é frágil, a empresa perde previsibilidade, expõe dados, compromete atendimento e coloca em risco toda a operação. Em um cenário de crise, sobreviver depende diretamente da solidez tecnológica construída antes do problema aparecer”, afirma.
“Não existe mais fronteira real entre governança digital e governança empresarial. Uma arquitetura mal planejada aumenta custo, amplia risco e reduz capacidade de escala. Já uma estrutura bem desenhada cria estabilidade, melhora tomada de decisão e protege a empresa contra interrupções que poderiam comprometer sua continuidade”, destaca.
Essa visão também aparece em sua atuação internacional. Entre 2018 e 2023, Dener assessorou um projeto de expansão empresarial para Portugal, ligado à implantação da filial europeia de uma empresa americana do setor de micromobilidade elétrica. Nesse processo, participou da estruturação societária e operacional, da interlocução com autoridades locais, da obtenção de licenças e da definição de infraestrutura tecnológica baseada em IoT para gestão de frota, acompanhando o início efetivo da operação em múltiplos municípios. A experiência reforçou seu domínio sobre ambientes regulatórios distintos e sobre a relação entre tecnologia, operação e escalabilidade.
Esse tipo de leitura se torna ainda mais relevante porque o mercado já não discute apenas proteção contra ataques, mas a robustez de toda a cadeia tecnológica. A aplicação do DORA na Europa e a classificação de grandes provedores como prestadores críticos para o sistema financeiro mostram que o debate avançou da segurança isolada para a resiliência operacional integrada. Ao mesmo tempo, autoridades britânicas alertaram em outubro de 2025 que os incidentes cibernéticos classificados como “altamente significativos” haviam subido 50% em relação ao ano anterior, com reflexos concretos sobre marcas e operações relevantes.
Para Dener, a principal mudança é que o mercado começou a entender que resiliência não se improvisa. Ela depende de desenho prévio, critérios de governança, redundância, segurança, visibilidade de risco e integração entre áreas técnicas e decisórias.
“Empresas maduras não esperam a crise para descobrir onde está sua dependência crítica. Elas mapeiam vulnerabilidades antes, definem contingências, estruturam processos e tratam a tecnologia como parte do modelo de negócio. A diferença entre parar e continuar operando está justamente nesse nível de preparação”, afirma.
A leitura do especialista converge com a tendência observada em relatórios internacionais: cyber resilience deixou de ser assunto apenas de TI e passou a ser tema de conselho, risco corporativo e competitividade. IBM define resiliência cibernética como a capacidade de continuar entregando resultados mesmo diante de eventos adversos, unindo continuidade de negócios, segurança da informação e resiliência organizacional. Em paralelo, a companhia destaca que os custos de downtime e perda de dados seguem pressionando as empresas a ampliar investimentos em continuidade e recuperação.
Em um cenário em que falhas tecnológicas podem interromper receita, afetar reputação e comprometer a continuidade do negócio em poucas horas, a mensagem é objetiva: a infraestrutura deixou de ser bastidor. Ela passou a ser uma das principais garantias de permanência das empresas em tempos de crise.




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