Turismo sustentável se consolida como motor de desenvolvimento regional no Brasil
Especialistas defendem que gestão estruturada e eficiência operacional são determinantes para transformar destinos naturais em polos econômicos organizados
Reprodução O turismo sustentável deixou de ser tratado apenas como uma tendência de comportamento do viajante e passou a ocupar posição estratégica no desenvolvimento econômico de regiões brasileiras ligadas à natureza, à hospitalidade e à experiência ao ar livre. Em abril de 2026, o tema ganhou ainda mais relevância com a divulgação de dados que apontam crescimento expressivo do turismo internacional no país: segundo o Ministério do Turismo, o Brasil registrou mais de 1 milhão de turistas estrangeiros em março e atingiu recorde histórico no primeiro trimestre de 2026, com alta de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O avanço ocorre em um cenário global favorável ao setor. O World Travel & Tourism Council informou que viagens e turismo alcançaram contribuição recorde de US$ 11,6 trilhões para o PIB mundial em 2025, representando 9,8% da economia global e crescendo acima da média da economia mundial. No Brasil, a projeção do próprio WTTC já apontava que o setor de viagens e turismo poderia superar US$ 167 bilhões de contribuição econômica em 2025, com suporte a milhões de empregos no país.
Esse movimento reforça uma discussão central para destinos naturais brasileiros: não basta atrair visitantes; é preciso transformar fluxo turístico em organização, renda local, preservação ambiental e profissionalização das operações. Em regiões como Bonito, no Mato Grosso do Sul, reconhecida nacional e internacionalmente pelo ecoturismo, a sustentabilidade depende tanto da conservação dos atrativos naturais quanto da capacidade de estruturar serviços, treinar equipes, controlar fluxos, melhorar a experiência do visitante e garantir eficiência na operação.
Para Fernando Aivi Peres, empresário, gestor e especialista em operações de turismo, hospitalidade e produção audiovisual estratégica, o crescimento do turismo sustentável exige uma visão prática de gestão. “O turismo sustentável só se consolida quando existe gestão por trás da beleza natural. O visitante procura uma experiência memorável, mas essa experiência depende de segurança, atendimento, logística, manutenção, comunicação, equipe treinada e processos bem definidos. Sem organização, o destino pode até atrair público, mas terá dificuldade para gerar valor econômico de forma consistente”, afirma Fernando.
A visão do especialista dialoga com uma mudança mais ampla observada no setor. O Ministério do Turismo tem destacado a importância de estruturar e promover destinos de natureza em diferentes unidades da federação, indicando que o Brasil possui grande potencial para experiências ligadas ao contato com ambientes naturais. A agenda também se conecta a iniciativas de promoção internacional, como o Plano Brasis, desenvolvido pela Embratur em parceria com o Sebrae e o Ministério do Turismo, voltado a posicionar o país como destino diverso, sustentável e competitivo até 2027.
“Um destino natural não pode depender apenas do encanto visual. A natureza é o ativo principal, mas a gestão é o que protege esse ativo e transforma a visita em desenvolvimento econômico. Quando a operação é bem estruturada, o turista percebe qualidade, a equipe trabalha melhor, os parceiros ganham mais confiança e o empreendimento consegue crescer sem perder responsabilidade ambiental”, explica.
Embora o crescimento do turismo de natureza represente uma oportunidade econômica, ele também amplia a responsabilidade dos gestores. O aumento do fluxo de visitantes pode gerar pressão sobre trilhas, rios, áreas de apoio, transporte, resíduos, equipes e comunidades locais. Por isso, especialistas defendem que o desenvolvimento regional precisa ser acompanhado por planejamento, governança, capacitação e indicadores de qualidade.
Fernando observa que a eficiência operacional é um dos elementos menos visíveis, mas mais decisivos, para a sustentabilidade do setor. “Muitas vezes, quando se fala em turismo sustentável, as pessoas pensam apenas na preservação ambiental. Isso é essencial, mas não é suficiente. Também é preciso reduzir desperdícios, organizar equipes, cuidar da manutenção, melhorar a comunicação interna, acompanhar feedbacks dos visitantes e tomar decisões rápidas. Sustentabilidade também passa por gestão eficiente”, afirma.
A tendência internacional confirma essa ampliação do conceito. Em 2026, discussões sobre turismo sustentável passaram a envolver temas como regeneração ambiental, fortalecimento de comunidades locais, redução de desperdícios na hospitalidade, descentralização de fluxos turísticos e valorização de destinos menos saturados. Para países com grande diversidade natural, como o Brasil, isso representa uma oportunidade de reposicionamento, especialmente em regiões que combinam biodiversidade, cultura local e potencial de geração de renda.
No caso brasileiro, o desafio está em transformar potencial em estrutura. O país possui atrativos naturais reconhecidos internacionalmente, mas muitos destinos ainda dependem de avanços em infraestrutura, qualificação profissional, conectividade, gestão integrada e promoção organizada. Para Fernando, esse é justamente o ponto que separa um destino promissor de um polo turístico consolidado.
“O turista de hoje compara experiências. Ele não avalia apenas a paisagem, mas todo o processo. Se o atendimento é confuso, se a informação não chega, se a operação não é segura ou se a equipe não está alinhada, a percepção de valor cai. Por outro lado, quando cada detalhe funciona, o visitante entende que está em um destino profissional, responsável e preparado”, destaca.
A atuação de profissionais com experiência prática em destinos naturais tende a ganhar relevância nesse contexto. Fernando reúne vivência em audiovisual turístico, hospitalidade, atendimento, vendas de passeios, comunicação digital e gestão operacional. Antes de assumir a gerência geral do Rio Sucuri, atuou no Grupo Bonitur entre 2012 e 2020, passando por recepção, vendas de passeios e marketing com produção audiovisual, além de ter iniciado sua trajetória no próprio Rio Sucuri, entre 2007 e 2009, com fotografia e operação audiovisual para turistas.
“Quando comunicação, operação e atendimento caminham juntos, o destino ganha força. A imagem atrai, mas a experiência fideliza. E, para que a experiência seja boa, é preciso que a equipe esteja preparada, que os processos estejam claros e que a gestão acompanhe o dia a dia de perto”, afirma Fernando.
O crescimento do turismo sustentável também impacta diretamente economias locais. Hotéis, pousadas, restaurantes, guias, transportadores, produtores rurais, artesãos, operadores de passeio e fornecedores passam a se beneficiar de um fluxo turístico mais qualificado e organizado. No entanto, esse impacto positivo depende de uma cadeia bem coordenada. Quando o destino cresce sem planejamento, os benefícios podem se concentrar em poucos agentes ou gerar sobrecarga ambiental e operacional.
Por isso, especialistas apontam que a próxima etapa do turismo brasileiro não será apenas vender mais destinos, mas desenvolver modelos de gestão capazes de sustentar o crescimento. A profissionalização das operações, a adoção de tecnologias, a capacitação de equipes locais e o uso estratégico da comunicação visual tendem a ser fatores cada vez mais relevantes para diferenciar destinos competitivos.
Fernando acredita que o Brasil tem condições de transformar seus destinos naturais em referências internacionais, desde que a expansão seja acompanhada por responsabilidade. “O turismo de natureza precisa gerar renda, mas também precisa preservar o que torna aquele lugar especial. O equilíbrio está em crescer com método, com equipe, com manutenção, com cuidado e com visão de longo prazo. Quando isso acontece, o turismo deixa de ser apenas visitação e passa a ser desenvolvimento regional de verdade”, conclui.
A consolidação desse potencial, porém, dependerá da capacidade de unir conservação ambiental, eficiência operacional e gestão profissional. Em destinos como Bonito, essa combinação já demonstra que a sustentabilidade, quando estruturada, pode ser não apenas uma bandeira ambiental, mas um motor concreto de desenvolvimento econômico regional.




COMENTÁRIOS